domingo, 22 de julho de 2012

O fecho de determinados Serviços de Urgência.

Quando em conversa casual à uns dias comentei: "Olha, vão fechar a urgência de Santo Tirso!" comentaram: "Já vão tarde!" Porquê?

Como quando se fechou determinadas Urgências de Obstetrícia, a questão que se coloca aqui volta a ser competência vs proximidade.
Pontos a reter:

a) Para situações graves as urgências de proximidade são provavelmente uma perda de tempo. O "cut-time" definido por este relatório é porém de sessenta minutos, talvez excessivo, quase de certeza excessivo.

b) Os 50% de situações de urgência não urgentes pedem uma educação da população portuguesa e uma interrogação: porquê esta fixação dos portugueses em ir para a urgência? Haverá algo de psico-dramático neste correr para o SU que não vai desaparecer com duas tretas. Afastar o SU apenas vai acrescentar ao masoquismo e à catarse da ida à urgência, não?

c) Os SASU's  e os médicos de recurso estão ou não afogados com a falta de centenas de médicos de família que passem receituário, mediquem gripes, revejam edemas?

d) O reforço da importância das Urgências de Faro, Viseu e Vila Real só pode ser enaltecido.

e) Na avaliação do SU's do Algarve parece-me que, claramente, a sazonalidade não foi tida em conta. E este é um problema que não pode ser resolvido apenas "depois".

f) Há médicos a mais? Em determinadas especialidades sim. Médicos de família não. Médicos de emergência capazes não. No que diz respeito a estes está por determinar o custo-utilidade da criação da especialidade "Medicina de Emergência"  em Portugal.  O fecho das contratações hospitalares e não deve ser um pretexto simples para o "refueling" das Urgências a preços de saldo.

g) pergunto se a articulação com o INEM - carros e helicópteros - foi adequadamente salvaguardada, tendo em atenção a perda de proximidade sobretudo no interior, mas não só.

h) se não há Médicos de família suficientes como vamos reforçar os SASU'S?

i) a rede de SU's tinha sido reformulada recentemente por outra comissão há poucos anos. Porquê outra comissão e não uma reflexão de acompanhamento das consequências das decisões da comissão anterior? O mais importante deve ser a decisão correcta e não quem decide.

j) quando se refere que tudo isto acaba por ser uma decisão política não nos podemos esquecer que não estamos a vender a RTP. Se na comissão estavam os que mais sabem qualquer alteração deve ser muito bem explicada.

k) esta reorganização não pode ser lida como apenas uma forma de economizar. O problema é que quando ao mesmo tempo cortamos e acrescentamos, os cortes acontecem logo mas os acrescentos ou não acontecem ou depois são "redecididos" porque "afinal"...

m) e volto aos carros e aos helicóteros. Eu sei que no distrito de Bragança mora menos gente que no concelho de Matosinhos e no concelho de Miranda do Douro mora menos gente que em Pedrouços-Maia, mas... concebe-se Portugal sem Miranda adequadamente atendida? E Zamora, a cidade onde Afonso Henriques se sagrou cavaleiro, não fica assim tão perto...

n) as pessoas cresceram a ver a medicina de proximidade como uma coisa boa e este é um paradigma mental que não muda assim tão rapidamente. Os comentários como aquele por onde eu comecei nascem de uma má experiência pessoal mas não são ainda a noção generalizada. Por outro lado a aprendizagem não deve acontecer pela exposição iterada da população a medicina menos competente. Esta acontece em qualquer urgência, em qualquer hospital. No entanto, mecanismos de "double-check" minimizam o risco de má medicina - que, sim, existem por enquanto mais nos grandes hospitais. Porque nestes a ordem é também para poupar, esperemos que o "double-check" não desapareça do mapa da medicina portuguesa.

o) em tempos que já lá vão o "double-check" chamava-se formação e era automático...

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