segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A desqualificação portuguesa.

A pergunta que hoje se faz sobre cada português - nos meios onde tudo se decide - é "para que serve". Sim, este, aquele, esta, aquela, para que serve? Os nossos doutos chegaram à conclusão que Portugal tem o povo errado. Para aí metade dele "não serve para nada". Destes mais de metade, falando à Vancouver, Álvaro, "don't know shit!" Descodificando, estamos a falar da 4ª classe. Os outros, coitadinhos, tiraram os cursos errados!
Quem nos diz que está surpreendido com o desemprego mente. E mente descaradamente. O desemprego é a enzima mais rápida a destruir todas e quaisquer garantias laborais. Sabe quem vive ou viveu em Espanha nos tempos do desemprego a 20% que então as garantias laborais eram zero, havia quem contratasse à 2ª para despedir à 6ª para voltar a contratar à 2ª. Os nossos doutos acham que nós - porque só temos a 4ª classe, ou porque escolhemos mal o curso - não merecemos melhor. Isto é foda à bruta e sem lubrificante. Pena é existir um pouquinho de verdade no 1º parágrafo. Mas não se pode mudar um povo, pois não? E agora?

domingo, 16 de setembro de 2012

A TSU e o resto.

Ontem muita gente foi para a rua. O tom foi quase celebratório - existe esta palavra? Não percebi porquê. Ainda ninguém me apresentou uma alternativa minimamente credível à malfadada Troika. A TSU  foi uma proposta desajeitada e, mais uma vez, socialmente iníqua. Mas o dinheiro vai ter que saltar de algum lado, e não vai ser do ordenado do António Mexia, por muito socialmente insensível que ele esteja a ser. O problema está sempre no dinheiro! O dinheiro que Portugal parou de poder gastar mas com uns cinco a dez anos de atraso.
Dinheiro, dinheiro, dinheiro. E Portugal é um país não demasiado capaz de o gerar. A Europa não está bem, é como uma família com as contas a deslizar para o vermelho. Irmãos vinte e sete, e desavindos. Portugal é não um dos mais novos mas sim um dos mais pobres. O "core" mais rico da família não sabe muito bem o que fazer connosco e, secretamente, pondera abandonar-nos á nossa sorte. A indecisão nasce de quanto esse gesto lhes pode custar a eles, não sendo nós a preocupação principal. Nós sim devemos preocuparmo-nos connosco. Endireitar as contas tentando que isto se faça de forma o mais socialmente justa possível. Não faltando ao respeito ao povo todo que somos nós. Só endireitando as contas poderemos endireitar as costas e olhar em frente. Todo o país - incluindo os que mais sabem e, muito, os que mais têm - deve empenhar-se nesta ressurreição. É costume dizer-se que nestas ocasiões mais do que nunca, um país precisa de um timoneiro em que acredite de forma a ver "a vida para além da crise", a "luz no fundo do túnel", uma vida e uma luz portuguesas e, esperemos bem, europeias. Pedro Passos Coelho não tem - e esta última semana demonstrou-o à saciedade - a altura, a envergadura, a sensibilidade, a inteligência para ser o timoneiro que Portugal hoje precisa.
Estamos então no mato e sem cachorro.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

RAN3 – O ÚLTIMO NÍVEL







Manual de Instruções para o Jogo do Ran (Rápida Ascensão Nacional)


Este jogo pode e deve ser jogado por, apenas, um jogador... de cada vez.

Dica: Para ter sucesso, o jogador deve procurar manter o seu baixo nível habitual.
Advertência: Este jogo provoca forte dependência e proporciona proveitos inesperados e irreversíveis.
Nota: Em caso de dúvida, aconselhe-se consigo próprio.


Ran1 – O Principiante

Corre, salta, anda, nada. O cansaço não passa por ele. É novo, novato e noviço. O seu mundo é um comício, um congresso ou um jantar de militantes. Tanto faz.
A sociedade é aquilo que os seus ídolos dizem: tal e qual. A política é a vida, a vida é o partido do presidente da câmara e o presidente da câmara é deus, sem tirar nem pôr.
O seu sonho maior é ser o mais igual possível ao mestre estampado nos cartazes.
Mas, ainda é cedo. Para já, o seu catecismo é um livro único, adoptado sem dúvidas nem comentários.

Corre, salta, anda, nada. De vez em quando, fala com as palavras iguais às do seu deus, à espera que esse mesmo deus o puxe para junto dele e lhe entregue uma fatia de céu.
Corre, salta, anda, nada. Está no primeiro nível do jogo. Os bicos dos pés são o seu suporte natural e a bajulação é uma questão de princípios e um modo de sobrevivência.
Assume trejeitos de libelinha atarefada, de melga nervosa, de pardal irrequieto, de rato de porão.
Começa a distanciar-se das emoções, controla os sorrisos e disfarça a ganância latente. Tudo, com uma facilidade estonteante e rigidamente ensaiada.
Com o decorrer do tempo, veste-se melhor e torna-se quase imune aos valores essenciais. Um dia, passa de nível.

Ran2 – O Bom

Ainda corre, ainda salta, ainda anda, ainda nada. Está no nível dois do jogo. É um sábio, um sabichão, um sabidola. O seu mundo é uma montra em constante movimento, um carrossel de teorias milenares e sarcásticas, um chorrilho de promessas ou de coisas parecidas com vigarices.
Nesta fase, a sociedade pode tornar-se naquilo que ele próprio diz. Para isso, esforça-se por ser cada vez mais altaneiro, mais ridículo e mais influente. A política é a vida e a vida é o parlamento, paredes-meias com um qualquer poleiro do partido, e o presidente do partido é deus, sem tirar nem pôr.

O jogo começa a correr bem. O tipo está quase um ás em matéria de trapaças. O seu maior sonho é passar despercebido com os seus sacos de cor azul. Já não é cedo para arrepiar caminho em direcção ao éden. Agora, é ele próprio quem inventa as suas bíblias e limites. Os catecismos ficaram para quem vem atrás, tentando imitá-lo.

Ainda corre, ainda salta, ainda anda, ainda nada. De vez em quando, e bem à sua maneira, dá nas vistas e nos noticiários, falando mal de quem não o apoia, falando bem dos que o aplaudem e falando melhor dos que, ainda, estão mais acima.

E, assim, com a consciência no bolso e a honra na pasta, lá vai, jogo adiante, ganhando mais vidas de cada vez que abate ou tenta abater alguém. A corrupção e a mentira são a sua base de sustento obrigatório e o seu mundo está nas autarquias, no miolo dos gabinetes, nas instituições públicas e nos quadros superiores de um qualquer sítio importante. É aí que o jogador repousa, enquanto o alimentam com dinheiros e palmadinhas nas costas. Um dia, passa de nível.


Ran3 – O Mestre

O último nível. Não há mais nada para lá deste patamar. Nada que seja digno de importância. A partir daqui já não há quem corra, já não há quem salte, já não há quem nade. Já não é preciso. Não há ruas nem caminhos a percorrer nem mares nem rios para atravessar. O mundo é um pântano cheio de curvas, eleições e moscas. Segundo a Constituição, quem mora aqui, é senhor das suas coisas e das coisas dos outros. É mais forte do que deus, mesmo que deus seja o presidente da câmara.

Nesta fase, o jogador move-se, apenas, entre dois pontinhos pequeninos de um ecrã minúsculo e negro.
Num dos pontos situam-se as delícias das viagens ao Índico e no outro ponto, a vaidade das Ran3 (rentrées). Estar num dos lados é, perfeitamente, igual a estar no outro.
Para além dele, ninguém se importa.

Ctrl+Alt+Del, já!
Já!...

esquerda, direita...



Fulano é um homem de esquerda. Por isso, naquela reunião importante, quando viu o sujeito, à sua direita, tomar aquela atitude de esquerda, não se conteve e disse:

“- Então o senhor, um homem de direita, sentado à minha direita, toma uma atitude de esquerda?
Que há-de dizer este tipo, sentado à minha esquerda, que tem atitudes de esquerda, ainda mais à esquerda do que as minhas?
Se calhar, ele ainda se vai lembrar de dizer que quem é de direita sou eu. Que as suas ideias são mais esquerdas do que as minhas, etc., etc..
Com franqueza! Acho melhor que reconsidere a sua posição, homem!
Ou revê a sua atitude, e, consequentemente, altera a sua opinião ou teremos aqui um problema, pontual é certo, mas significativamente elucidativo para quem, ávido de fofocas, não perderá, de modo algum, esta oportunidade de questionar peripécias como esta, muito pouco dignas de quem, como o senhor, prometeu defender interesses de um determinado quadrante.
Ao falar de fofocas, refiro-me aos jornalistas. Esses desiluminados fazedores de não-notícias.
Aos jornais e aos directores de jornais que se aguentam à esquerda quando o poder é de esquerda, mas que se cimentam à direita quando o poder é de direita.
E olhe que eu tenho um cagaço, exacerbado, de tudo o que mexe com opiniões escritas, feitas sabe-se lá por quem e que, quer seja à direita de mim ou à esquerda de si, atinge as pessoas bem no centro das suas posições.
Além disso, o respeitado colega já reparou que, pondo de parte tudo e todo o resto e estando eu obrigado, também, a tomar uma atitude, me vejo agora circunscrito ao tremendo problema de não ter espaço político, partidário e de coerência individual para me manifestar de acordo com a minha posição?
Não viu, não! Eu sei que não reparou nisso, mas o meu dever passa por colocar-lhe esta minha preocupação. Espero que não leve a mal.
Mais a mais, não será por isto que, numa próxima oportunidade, lhe ocorrerá tomar atitude semelhante. Pois não?"

“- Certamente que não. Não será por causa disso. São outros, os motivos.” – disse o sujeito à direita. E continuou:

“- O facto de estar à sua direita confere-me o direito de o ver, a si, como uma referência fundamental. Oriento-me, por si, por exemplo, quando quero saber, rapidamente, onde é o meu lugar.
E, quer o senhor queira, quer não queira, já não podemos passar um sem o outro. De tal modo que, por vezes, sinto-me tentado a comungar do seu discurso.
Quanto mais não seja, para que, à minha direita, não coloquem nunca, outras cadeiras.”

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

a "rentrée" em "time out"



chamar “rentrée” a qualquer coisa que recomeça depois do verão, é um fenómeno tão “burresco” e tão “broeiro” que chega a parecer uma enorme senilidade consentida, que não passa de moda, que não desaparece, que não evolui e que não tem outro propósito que vá para além da banalização do título fácil que se estende a toda a imprensa, desde a cor-de-rosa à cor-de-cravo.

desta vez foi a revista “time out” (coitadinha) que se assumiu como mais uma voz da popularidade grosseira e instituída e buscou para a sua capa a promessa de uma “rentrée” com imperdíveis na barriga.
(neste caso, temos um título sobre concertos a precisar de um outro conserto... mais português).

se a ideia de utilizar esta palavra, nesta revista, veio das lisboas (que é de onde vêm todas as decisões) ou nasceu cá pelo porto, é uma  coisa que não interessa para nada, mas que foi uma ideia foleira… isso foi, sim senhores.

estas coisas de "rentrées" devem ser deixadas para quem sabe e para quem as merece (como é o caso de portas, coelhos, seguros, jerónimos e companhias limitadas e ilimitadas).
a estes, fica-lhes muito bem o "franciú" espampanante do termo que, para o "ti jaquim de santo antoninho das hortaliças", soa a brilhantismo de doutores.

é muito melhor, para as pessoas de bem, aguardar a REENTRADA das coisas e das pessoas boas, sejam- eles ou elas- concertos, peças de teatro, livros e filmes novos ou, simplesmente, de gente que nos diga ou nos acrescente, alguma coisa que valha a pena.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Porque interrompe um Presidente da Republica as férias?

O nosso é para algo muito importante como inaugurar o HPP de Albufeira. Nada mais mereceu ao nosso Presidente um interromper de férias.

Venha a BBC e o Fernando Pessa!

Há umas horas assisti à subida ciclista - na Volta a Portugal - ao alto da Torre. O camisola amarela, Hugo Sabido, foi literalmente levado ao colo até lá cima pela sua equipa, para conseguir ficar apenas a 8s do simpatiquíssimo galego David Blanco.
Tal este governo - e arredores - com Miguel Relvas. E então, ontem, António Borges lançou para o ar - na TVI, calha... - a hipótese do fecho da RTP2 (e ouvi bem, da Antena 3?) e da concessão da RTP1 a privados. António Borges adora ser "o outro", pois assim acaba por ter ainda maior protagonismo, sem futuro sufragar eleitoral. É um rapaz "americanizado", como o são aliás Vitor Gaspar e o Álvaro-não-sei-quê. Nos USA há o PBS e a NPR, serviços públicos pelo que sei correspondendo a uma espécie de RTP2 e Antena1. Uma vez mais os nossos governantes e equiparados querem ultrapassar pela direita as exigências da troika. Este é um governo de extremistas que se julgam iluminados.
Fechar a RTP1 não me deixa qq saudades. A famosa taxa audiovisual por mim deve servir para manter a boa rádio pública que temos e fornecer fundos para uma RTP2 algo "insuflada" e melhorada e acrescentada com alguns pedaços da RTP1 que minimamente se aproveitem. E assim cumpre-se a Constituição. Se há espaço para vender a licença da 1 aos privados, o mercado que decida.
Se não há vontade política para fazer assim então concessione-se por ajuste directo à BBC - ei, nada de pruridos, o ajuste directo dr. Vitor Gaspar é tão frequente no seu ministério... - após uma palavrinha ao amigo Cameron, e à RTP pode passar a chamar-se PBC - Fernando Pessa's channel! Foda-se, e esta, em?