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terça-feira, 4 de setembro de 2012

esquerda, direita...



Fulano é um homem de esquerda. Por isso, naquela reunião importante, quando viu o sujeito, à sua direita, tomar aquela atitude de esquerda, não se conteve e disse:

“- Então o senhor, um homem de direita, sentado à minha direita, toma uma atitude de esquerda?
Que há-de dizer este tipo, sentado à minha esquerda, que tem atitudes de esquerda, ainda mais à esquerda do que as minhas?
Se calhar, ele ainda se vai lembrar de dizer que quem é de direita sou eu. Que as suas ideias são mais esquerdas do que as minhas, etc., etc..
Com franqueza! Acho melhor que reconsidere a sua posição, homem!
Ou revê a sua atitude, e, consequentemente, altera a sua opinião ou teremos aqui um problema, pontual é certo, mas significativamente elucidativo para quem, ávido de fofocas, não perderá, de modo algum, esta oportunidade de questionar peripécias como esta, muito pouco dignas de quem, como o senhor, prometeu defender interesses de um determinado quadrante.
Ao falar de fofocas, refiro-me aos jornalistas. Esses desiluminados fazedores de não-notícias.
Aos jornais e aos directores de jornais que se aguentam à esquerda quando o poder é de esquerda, mas que se cimentam à direita quando o poder é de direita.
E olhe que eu tenho um cagaço, exacerbado, de tudo o que mexe com opiniões escritas, feitas sabe-se lá por quem e que, quer seja à direita de mim ou à esquerda de si, atinge as pessoas bem no centro das suas posições.
Além disso, o respeitado colega já reparou que, pondo de parte tudo e todo o resto e estando eu obrigado, também, a tomar uma atitude, me vejo agora circunscrito ao tremendo problema de não ter espaço político, partidário e de coerência individual para me manifestar de acordo com a minha posição?
Não viu, não! Eu sei que não reparou nisso, mas o meu dever passa por colocar-lhe esta minha preocupação. Espero que não leve a mal.
Mais a mais, não será por isto que, numa próxima oportunidade, lhe ocorrerá tomar atitude semelhante. Pois não?"

“- Certamente que não. Não será por causa disso. São outros, os motivos.” – disse o sujeito à direita. E continuou:

“- O facto de estar à sua direita confere-me o direito de o ver, a si, como uma referência fundamental. Oriento-me, por si, por exemplo, quando quero saber, rapidamente, onde é o meu lugar.
E, quer o senhor queira, quer não queira, já não podemos passar um sem o outro. De tal modo que, por vezes, sinto-me tentado a comungar do seu discurso.
Quanto mais não seja, para que, à minha direita, não coloquem nunca, outras cadeiras.”

sábado, 10 de abril de 2010

BENTO IRÁ A S.BENTO?



Bento irá a S. Bento. Disso e de outras histórias se falará, mais tarde, só para dizer o quanto mais caro que o previsto, ficou o obséquio hospitaleiro dos lusitanos. E comentar-se-á da excentricidade filantropa dos políticos que – e disso também se falará mais tarde – buscarão protagonismos circunstanciais e bolorentos nas páginas noticiosas e paroquiais de somenos publicações. Uns contra, outros a favor. De quê, afinal?

Bento irá a S. Bento. Irá? Ou a preferência da visita ficará pelas catacumbas de uma fé pouco abrilhantada por definições improváveis de um catecismo (teimosamente o mesmo) de milénios?

Bento irá a alguns dos lugares que o protocolo, explicitamente, designa, como “vaticanamente” correctos: as vias populares de cristianismo ancestral, onde abundam as não-perguntas, as não-questões e os não-problemas e onde as coisas são sempre como são e como já o eram antes de o serem. Ámen.
Bento irá aos sítios onde a venda de santinhos, de terços e de relíquias, assume proporções de idolatria ordinária que frutifica por toda a espécie de “crentes”.

Bento o que dirá, para além do que não diz?

Espera-se sempre que outro próximo fumo branco ganhe capacidades de diálogo e de transparência, mas seria importante desmistificar o poderio silencioso que o chefe da Igreja consegue manter. Tão afastado das inquietações crescentes de algumas pessoas que, sendo cristãos, vivem tempos de indiferença, perante uma liderança distante, egocêntrica e, analfabetamente, alheia aos tempos modernos.

Imposição em vez de ajuda. Silêncio em vez de respostas. Claustros em vez de sol.

Bento irá a S. Bento? Não sei, mas deveria ir. Seria um exercício gratificante, bilateral e único. Depois poderia apanhar o metro e ouvir as queixas, andar de autocarro e ouvir as queixas, andar pelas ruas e ouvir as queixas, visitar o Parlamento e ouvir as queixas. E, se tivesse tempo, “who knows” (?), assistir a uma tourada.

A seguir, o incontornável comboio para o Porto e ouvir as queixas, andar pelas ruas e ouvir as queixas, o metro outra vez e ouvir as queixas, o autocarro outra vez e ouvir as queixas e o Bolhão e ouvir as queixas. As gentes e as queixas.
Queixas que às vezes só se ouvem com a alma preparada.
Há uma multidão de gentes vulgares com uma angústia tornada vulgar. “Meu Deus!, dizem alguns.”

Afinal onde está o teu Deus, Bento?

Nelson Ferraz in “Maia Hoje”, 09.04.2010