quinta-feira, 28 de março de 2013

e por falar em audiências...




que tempos estes!...
um papa, um ex-papa, um primeiro ministro, um ex-primeiro ministro...
... bem, o ex-papa ainda não chegou a acordo com a RTP, mas...


sábado, 23 de fevereiro de 2013

O relatório do FMI e 2013 - a Saúde.

O relatório do FMI não consegue evitar elogiar o progresso dos indicadores portugueses de saúde nos últimos trinta anos. Portugal não gasta demasiado comparando com os restantes países da UE, em percentagem do PIB. E os resultados são bons.
Bom, e as críticas? Estas nascem em parte da ignorância do país, mas por outro lado também porque estamos em crise e com a corda em localização cervical: vamos gastar menos? (dizem...)

a) há comparativamente médicos a mais e enfermeiros a menos. Ok, digam-me algo que eu não saiba. Há enfermeiros a menos, o papel da enfermagem nos cuidados primários está obviamente subaproveitado por razões várias, algumas até culturais. O número de médicos deve ter em conta que neste momento está a acontecer um número elevado de reformas e de entradas de novos médicos: os números estão a mexer depressa, e variando muito de especialidade para especialidade. A carta hospitalar creio estar a acontecer, especialidade por especialidade. A carta de cuidados primários deve ser feita e englobar ambas as profissões: enfermeiros e médicos. A opção pela articulação de cuidados entre as duas profissões não deve acontecer apenas e só porque um enfermeiro custa muito menos do que um médico.

b) a mensagem dos "médicos a mais" coloca sempre em questão a real produtividade da classe médica. Esta é difícil de medir tendo em atenção a heterogeneidade de funções. Comparar a produtividade dum ortopedista com a produtividade dum internista ou a de um imunohemoterapeuta não tem qualquer lógica. Números analizados em bruto tipo "x acontecimentos/ano a dividir por y intervenientes" não abona a favor da inteligência de quem faz estas contas. Por outro lado se um hospital for universitário (você disse o quê, universitário?) isso ajuda ou atrapalha? Uma linha de montagem ensina?

c) "Médicos a mais" pode infelizmente ser uma boa notícia, ao querer dizer ordenados mais baixos induzidos "de fora para dentro". E já se nota um pouco. Curiosamente, pelo facto de terem uma capacidade negocial inferior, isto já está a acontecer, com bem maior violência, nos enfermeiros, cujos salários à partida já não eram nada elevados.

d) a questão da produtividade - e como se conseguiram tão bons indicadores de saúde com tão má produtividade? - coloca em primeira página a opção de separar as águas e não permitir que profissionais de saúde trabalhem simultaneamente no universo público e no privado. Curiosamente quando este assunto é abordado só se fala dos médicos. Uma elevada percentagem de enfermeiros acumula funções nos dois mundos e isto não parece incomodar ninguém. Então, qual é o problema com os médicos? Por outro lado a separação das águas em algumas especialidades é minimamente possível?

e) no relatório do FMI mais se refere que Portugal tem um gasto privado com a saúde superior á média europeia. Resumindo, o português gasta muito com a sua saúde, de uma forma ou de outra. O sistema privado de saúde português é relativamente caro e existem em algumas especialidades, especialmente as cirurgicas, honorários muito altos que, colocando-se a questão da exclusividade, retirariam ao serviço público os melhores profissionais em várias especialidades cruciais, cujo nome me dispenso de enunciar. Para este busilis criado pelas leis de mercado não vejo solução fácil: o objectivo de um hospital público de referência não deve ser "ter cirurgiões vasculares" mas sim "ter os melhores cirurgiões vasculares", um exemplo ao calhas. I rest my case. De qualquer forma, a produtividade exige-se e mede-se, independentemente do status do profissional em questão, médico ou enfermeiro, o estar ou não em exclusividade. Uma hora que se trabalha deve valer os seus sessenta minutos e não pela exclusividade valerá obrigatoriamente mais.

f) tempos houve que se falava muito da mobilidade dos profissionais de saúde. Hoje nem por isso: estando o país a "fechar o interior", mandar gente "para lá" não parece fazer sentido a ninguém "dos que por nós pensam".

g) e as horas extraordinárias? Talvez seja importante explicar no que consistem. Acontecem horas extraordinárias médicas porque para determinadas funções não há profissionais suficientes, nomeadamente serviço nocturno, de fim-de-semana, de serviço de urgência. A alteração referida de passar o horário-base de 35 para 40 horas em nada resolve esta questão, nos médicos mais novos já ninguém faz 35 horas e porém... A hora chama-se extraordinária porque não acontece em horário normal. Percebe isto muito bem quem vive trabalhando só de 2ª a 6ª f e de dia. Os enfermeiros, a mais incompreendida das profissões da área da saúde, trabalham já de base por turnos, e mesmo assim muitas horas adicionais são necessárias. Que os médicos passem a trabalhar por turnos é obviamente sugerido - outra ameaça à remuneração... Claro que a formação médica e a cultura de grupo e de medicina partilhada e discutida assim vai desaparecer. E na página 24 o relatório do FMI acha que a hora extraordinária (qualquer, seja uma ou dez) deve receber um honorário extra de 15% apenas e só. Extraordinário! Três da manhã de domingo vale apenas 15% mais do que três da tarde de quarta-feira?

h) o afluxo exagerado às urgências é resolvido também explorando o tecto constitucional colocado às taxas moderadoras até... ao tecto, ou seja, sugerindo a duplicação do valor de 20 euros para 40. Que se diga que metade da população é isenta de pagamento de taxas moderadoras (é mesmo verdade?) não esconde ser isto mais um caso de dupla tributação levado ao exagero mais atroz.

i) finalmente sugere-se a resolução rápida da geriatrização das enfermarias hospitalares com a expansão rápida dos cuidados continuados, o que está a acontecer, não se sabe se com poupança de custos, não se sabe se com custos na saúde dos doentes. É que idosos vamos ser todos...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O caso de assédio sexual no seminário do Porto que nestes dias foi notícia.

Quarta-feira foi notícia denúncia de uma situação de assédio sexual acontecida nos anos oitenta no seminário do Porto, sendo o protagonista o bispo Carlos Azevedo, ex-auxiliar de Lisboa e ultimamente colocado em Roma, e o denunciante o padre José Nuno, capelão do Hospital de S.João.
Hoje falei sobre esta história com três pessoas que muito prezo. Foram sempre diferentes as considerações e as conclusões. Vamos conversar um pouco...
 
O bispo Carlos Azevedo está eclesiasticamente morto, hoje por hoje. Um "caso" destes, acontecido há trinta anos, não se confirma nem se desmente. A definição de assédio sexual era outra nos tempos de Reagan e de Gorbachev. É estranho dizer isto, mas é verdade. Porém, esta caixa de Pandora ninguém a vai conseguir fechar, sendo uma palavra contra outra, ou pouco mais.
 
Apareceu nas televisões o bispo "incriminado" a declarar-se contra a pedofilia. O  veneno é óbvio e muito baixo, muito sujo. O que pode estar em causa é assédio homosexual entre adultos. O bispo Carlos Azevedo seria mais velho do que os seminaristas o mesmo número de anos que o meu pai é mais velho do que a minha mãe... A pedofilia não tem nada a ver com esta história, a questão do celibato dos padres sim, possivelmente, provavelmente, ou mesmo, até. Portugal é um país que hoje aceita o casamento homossexual, certo? Os homossexuais casam entre outras razões porque têm relações sexuais. Portanto, o celibato não é notícia...
 
O padre José Nuno é o capelão do meu Hospital. Fez uma denúncia, pelo que li, com vinte, trinta anos de atraso. Existe meia dúzia de coisas, de pessoas, que são realmente excepcionais no meu Hospital. O padre José Nuno é uma delas. O ser excepcional não é ser perfeito. É ser muitas coisas, com algumas destas coisas sendo muito boas. É ser fantasticamente humano. Temo muito pelo padre José Nuno. E não consigo explicar bem porquê.
 
Como em trinta anos não se consegue perdoar? Eu gosto muito do padre José Nuno. Portanto acredito nele. Portanto acredito, e com ele sofro, o facto triste sobre todos os factos tristes desta história, de o perdão não ter sido possível. É terrível a solidão dos justos. Temo pelo padre José Nuno porque, entre outras razões, ele está/é muito mais sózinho do que eu, já antes assim eu o via, agora ainda mais.
 
O meu padre José Nuno, eu sei que ele permitirá que eu assim o chame, publicou recentemente um livro sobre a morte nos hospitais, brilhante extensão da sua tese de doutoramento. Não comprei com medo do que podia encontrar no livro, perdoe-me, meu amigo.
 
Estou muito triste com tudo isto. Quem acredite em Deus precisará de ajuda agora como nunca antes precisou. Use-a, meu amigo, e em abundância.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O relatório do FMI e 2013 - a Educação.

O relatório do FMI (RDF) afirma taxativamente que o Estado português tem funcionários a mais em duas áreas - educação e segurança. Vamos falar da educação.
Os dados são os seguintes: Portugal gasta em percentagem do PIB o mesmo que, por ex.,  a Finlândia e tem dos menores ratios de alunos por professor da Europa, sendo que o grosso do ensino é público. E no entanto as escolas com melhor avaliação são privadas e a performance portuguesa no PISA - programa da OCDE de avaliação da performance escolar - é modesta. Os ordenados dos professores estão na média europeia ( com melhores salários na escola pública do que na privada) e a progressão salarial é por antiguidade e não por mérito. As colocações são centralizadas e rigidas e, uma vez mais, o mérito não é tido em conta. A carga horária é considerada curta. Dado o precipicio demográfico em que nos encontramos a necessidade de despedir professores parece óbvia, e os números no global não parecem mais assustadores porque o número de alunos nos extremos - pre-primário e universitário - continua a subir.
Desenhado este quadro, as sugestões são óbvias: despedir, mobilizar, aumentar a carga horária, premiar o mérito e não a antiguidade, passar funções para o ensino convencionado onde os ordenados são mais baratos, aumentar as propinas no ensino superior, etc., etc.
O RDF esquece a história educativa portuguesa. O nível português de alfabetização leva quase um século de atraso em relação à Finlândia, cujo PIB per capita de base é várias vezes superior ao nosso. A escola portuguesa tem mais trabalho pela frente ao educar um aluno do que a escola finlandesa. Sim, é preciso avaliar, sim é preciso mobilidade dos professores mais antigos - os mais novos já a têm, completamente aleatória. Sobre a carga horária não me pertence a mim pronunciar. Um professor trabalha mais em casa do que outros profissionais, não esqueçamos. A progressão salarial por antiguidade não me parece um erro em si. O erro está em não existir progressão por mérito. Lembremos que em Portugal nunca ouve uma meritocracia. Os portugueses não sabem como se faz e desconfiam que "meritocracia" seja um sinónimo encoberto para compadrio e escolha a dedo. E têm razões antigas e novas para isso. A profissão de professor não é uma profissão qualquer. O número excessivo de profissionais nasceu de um apelo subterrâneo (ou não) para que a educação finalmente fosse universal em Portugal. Quando houve na Finlândia militares a alfabetizar os camponeses? A curva demográfica portuguesa foi das mais abruptas da Europa, com uma queda abissal após um boom demográfico pós-74 que foi amenizado pela imigração dos anos  oitenta e noventa, africanos primeiro, europeus de leste depois.
O sofisma de que a escola pública prolonga e promove a desigualdade em vez de a desfazer nasce do facto dos alunos já partirem para a escola com uma desigualdade escolar "endógena", familiar,  de base dificilmente recuperável. O olhar está portanto enviezado. Pode dizer-se que a escola pública é rígida, é formatada de cima para baixo, e é verdade. Mas as crianças "melhores" vão para as escolas privadas e assim se explica em grande parte os tais bons resultados. E quando se diz que a universidade pública também promove a desigualdade não se quer ler que as melhores notas de entrada para as universidades públicas - estas sim tidas como as melhores - são obtidas no ensino secundário privado pelos alunos endinheirados, deixando de fora os outros. As universidades privadas vivem então dos alunos da classe média e média-baixa cujos pais passam fome ou quase para pagar as propinas, e dos alunos ricos e estúpidos mas a quem o ensino superior nunca será negado pelos pais. Grosso modo é assim, a excepção sendo isso mesmo: excepção. Subir propinas e manter igualdade ou não agravar o actual nível de desigualdade de acesso à universidade pública pede obrigatoriamente aumento do apoio social aos alunos. Podemos fazê-lo?

Sim, os sindicatos dos professores são uma corporação agressiva e "reaccionária". Mas o professor não pode ser visto como um inimigo. A escola pública é também onde o aluno aprende a ser social, aprende a conviver em democracia. Ou não. Possivelmente consegue-se fazer melhor escola pública com menos dinheiro. E vai ser necessário, infelizmente, avaliar os professores, mobilizar professores, despedir professores. Talvez seja preciso descentralizar mais, e competir, e premiar. E castigar. Mas uma escola pública excelente deve ser a meta a atingir. E nisto, firmemente, creio. Enquanto escrevo  a minha filha frequenta uma escola privada. Mas eu não disse que a escola pública hoje está bem. Ninguém pode dizer isso. Mas tenho eu menos direito a pronunciar-me sobre ela do que o FMI?

domingo, 13 de janeiro de 2013

E uma salvaguarda.

E, antes de arrancarmos para uma melhor análise do relatório do FMI e do momento que vivemos, porque tem este blogue - no que a mim diz respeito - estado tão calado? A resposta é simples: porque Miguel Relvas ainda é ministro. É que não há palavras.

O relatório do FMI e o ano de 2013 - take one.

Um país não é só números. Os números que medem um país nascem duma história. E os números nascem de um país em movimento. Números são um reflexo e não a essência. Números incontornáveis mas menos do que as pessoas que assim aparecem medidas. Espremidas?

Este relatório do FMI - cuja divulgação terá surpreendido o próprio e interessará aos do costume - é uma avaliação que só pode ser rejeitada - e a ideia é que o deve ser - após análise profunda e resposta adequada, isto é, com números melhores e falando das pessoas que nós somos metidos neste embrulho. Se considerarmos o relatório superficial, e ele nem sempre o é, a sua refutação não pode ser superficial. Mas a razão mais simples para recusar este relatório como a receita certa é que não somos nós a fazê-lo. E, para mim, esta razão chega. Basta de política e de políticos cobardes que pedem a outros - estrangeiros, ie., estranhos a nós - para ditar ao pobre nós-público o que verdadeiramente negro  sobre nós lhes vai na alma! Eu disse alma?

Agora é preciso responder e muito e circunstanciadamente.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sobre (outra vez) o medo.

Na sequência de declarações recentes que passam por originais, seja na televisão seja nos jornais, aqui vai do O'Neill, tão a propósito...




O Poema Pouco Original do Medo




O medo vai ter tudo

pernas

ambulâncias

e o luxo blindado

de alguns automóveis



Vai ter olhos onde ninguém os veja

mãozinhas cautelosas

enredos quase inocentes

ouvidos não só nas paredes

mas também no chão

no tecto

no murmúrio dos esgotos

e talvez até (cautela!)

ouvidos nos teus ouvidos



O medo vai ter tudo

fantasmas na ópera

sessões contínuas de espiritismo

milagres

cortejos

frases corajosas

meninas exemplares

seguras casas de penhor

maliciosas casas de passe

conferências várias

congressos muitos

óptimos empregos

poemas originais

e poemas como este

projectos altamente porcos

heróis

(o medo vai ter heróis!)

costureiras reais e irreais

operários

(assim assim)

escriturários

(muitos)

intelectuais

(o que se sabe)

a tua voz talvez

talvez a minha

com certeza a deles



Vai ter capitais

países

suspeitas como toda a gente

muitíssimos amigos

beijos

namorados esverdeados

amantes silenciosos

ardentes

e angustiados



Ah o medo vai ter tudo

tudo



(Penso no que o medo vai ter

e tenho medo

que é justamente

o que o medo quer)



*

O medo vai ter tudo

quase tudo

e cada um por seu caminho

havemos todos de chegar

quase todos

a ratos



Sim

a ratos